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sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

CIMENTEIRA: PORQUE NÃO NA ILHA DO MAIO?

Ultimamente, e numa altura em que muito se tem falado da influência das redes sociais na sociedade e, nomeadamente, na vida política, tem surgido algumas explicações ou meras opiniões da parte de algumas personalidades ligadas ao PAICV e ao Governo sobre a Transferência do Projecto da Cimenteira para Santa Cruz. Refiro-me nomeadamente ás declarações do Deputado Municipal Tó Tavares e, mais recentemente do Ministro do Ambiente, Desenvolvimento Rural e Recursos Marinhos José Maria Veiga.

Começando pelo Deputado Municipal Tó Tavares, diria que ele revelou (mais uma vez) aquilo que venho constatando de algum tempo a esta parte: a militância nos partidos políticos em Cabo Verde enceguece completamente as pessoas. Já ouvi da boca de um militante e dirigente do MPD no Maio que todos os estudos indicam que a melhor localização para um Porto na ilha do Maio é exactamente onde está o actual. Fiquei estupefacto. Para não assumir que a construção daquele porto foi um erro do seu partido, insiste numa ideia que, á partida, qualquer cidadão (não e preciso ser especialista para ver) sabe que não a mais racional. Então para Djarmai ter um porto era preciso cortar ao meio a extensa praia de areia branca e água cristalina que se estende de “bitxe rotxa” até ao Morro?! Não se consegue arranjar ao longo de toda a costa maense uma “gretinha” com condições para se erguer um porto?! ODJE Y PAKÉ??!!

Mas voltando á cimenteira, ou melhor projecto de cimenteira (é proibido dizer cimenteira sem projecto á frente), e ao deputado Tó Tavares, diria que ele não podia ter sido mais infeliz na sua argumentação. Tó Tavares, que apesar de não conhecer, admiro (não como deputado), poderia ter-nos poupado deste triste episódio. “Não deixa de ser paradoxo quanto reivindicam que o Estado transporta para o Maio, arroz porque lá não existe, petróleo porque lá não existe, mercadoria, aeroporto, avião, barcos porque temos esse legitimo direito e, quando chegar o momento do Maio contribuir com o seu quinhão, aquilo que possui para partilhar com o todo nacional, aparece gente a choramingar” estes são os argumentos do Deputado Tavares para justificar a tal transferência.

Meu caro compatriota Tavares, que comparação mais estapafúrdia! Então as matérias-primas serão levadas para Santa Cruz como contrapartida do arroz, do petróleo,…, dos aviões… que recebemos de… Santa Cruz?!  Sr. deputado cabe ao estado gerir os recursos do subsolo mas, de forma racional e não me parece que transportar 90% de matérias-primas (rocha bruta) de um sítio para se juntar a 7% doutro sítio seja a opção mais racional. Não seria melhor transportar os 7% para se juntar aos 90%? Além do mais meu caro compatriota, o Sr. que foi eleito para defender os interesses da ilha do Maio e dos Maenses, aceita que os que o elegeram sejam privados de um projecto que criaria directa e indirectamente cerca de 400 postos de trabalho (e estamos a falar da ilha com a segunda maior taxa de desemprego do país), além do grande impacto que teria na economia da ilha atraindo outras actividades e outros investimentos. O pior é que o Sr. aceita sem exigir do seu partido uma explicação plausível. Isto sim é paradoxo Sr. Deputado. O Sr. deveria ser o primeiro a exigir do Governo um estudo comparativo para localização em Santa Cruz e em Djarmai. Porque não o faz?

Em relação ao Sr. Ministro José Maria Veiga, o seu comentário demonstrou, mais uma vez, que todo este processo é, no mínimo estranho e nem o Governo nem o PAICV tem uma explicação racional para a transferência.

O Ministro afirmou, num comentário no Facebook, que “durante o processo de fabrico do cimento é produzido uma matéria de nome Clinker que é muito perigoso e que os turistas não iriam a Maio se soubessem que lá se produz esta matéria”. E eu pergunto: então o Clinker é perigoso para os turistas e não é perigoso para a população de Santa Cruz? Esta será a primeira unidade a produzir esta matéria? Santa Cruz não tem projectos turísticos

O Ministro Veiga subestima as capacidades dos maenses ao pensar que estas explicações são suficientes para nos convencer que não se pode ter uma fábrica de cimento na ilha do Maio. Tal como o Sr. Ministro, eu também estou consciente de que a indústria cimenteira traz desvantagens ambientais para qualquer espaço, mas eu sei e sei que o Sr. Ministro também sabe que, o que é perigoso para os turistas que visitam Maio é também perigoso para os turistas que visitam Santa Cruz, é também perigoso para os Maenses, Santacruzenses, e qualquer outro ser vivente. Portanto como é que o Sr. Ministro explica que, não se pode construir no Maio porque faz mal aos turistas mas pode-se contruir em Santa Cruz onde vivem os santacruzenses? 

Ademais, a Sr. Ministro conhece, tal como eu, o Estudo de Impacto Ambiental que o seu Governo encomendou, que dá um parecer favorável á instalação da fábrica em Santa Cruz e que não faz nenhuma menção a eventuais perigos resultantes da produção do Clinker. Já agora Sr. Ministro, o Clinker é também a matéria base usada na produção do cimento nas fábricas da Sécil em Setúbal e da Cimpor em Loulé (Algarve), duas das regiões que mais turistas recebem em Portugal.

Mas há ainda outros aspectos do estudo a realçar e que contradizem a tese de uma eventual incompatibilidade com o turismo. Segundo o Estudo de Impacto Ambiental da Cimenteira a ser instalada em Santa Cruz, serão transportados anualmente, e por via marítima, 409.900 toneladas de calcário, 62.400 toneladas de xisto e 18.300 toneladas de gesso da ilha do Maio, equivalente a 90% das matérias-primas. E apenas a argila, que só representa 7% das matérias-primas será extraída em Santa Cruz. E o estudo revela ainda, e passo a citar: “O calcário constitui a matéria-prima mais importante na produção do Clinker e do Cimento…  será explorado na Ribeira do Toril localizada a NE da Vila do Maio, numa encosta de declive suave e a exploração será a céu aberto.” E não há Estudos de Impacto ambiental para estas explorações porquê? Não vou entrar mais a fundo na análise a este estudo, algo que farei num outro artigo.

Importa ainda referir que o Primeiro-ministro durante a campanha na ilha do Maio afirmou que nunca ouve projecto para cimenteira na ilha (o que não é verdade) e disse estar disponível para apoiar eventuais projectos que possam surgir para cimenteira em Djarmai. Afinal, Maio pode ou não pode ter uma Cimenteira?

Qual é afinal a justificação para não se instalar a fábrica em Djarmai? Será porque o Clinker afugenta os turistas como diz o Ministro Veiga? Será porque nunca houve projecto como diz o Sr. JMN? Ou será para pagar o arroz, o petróleo, os aviões,…, que recebemos (de Santa Cruz?) como justifica o Sr. Deputado Tavares?

Perante toda esta carambola fica claro que a única razão para esta decisão é favorecer Santa Cruz em detrimento de Maio.

Nota final ainda só para fazer uma chamada de atenção. O tema Cimenteira, ou melhor Projecto da Cimenteira, esteve em destaque durante a campanha eleitoral e findo o período eleitoral parece ter (voltado a) cair no esquecimento, principalmente daqueles que têm algum poder de decisão. O MPD, num claro acto de aproveitamento político, apareceu a falar deste assunto nas vésperas das eleições. Primeiro através de um comunicado na CMM e depois durante a campanha. A deputada Joana Rosa por várias vezes prometeu devolver o projecto á ilha e ao que parece até já se esqueceu. Mas o povo não esquece Sr. Deputada.

Isto só demonstra que para os partidos e, infelizmente, para alguns maenses, esta questão só tem interesse político, espelhando bem a situação a que chegamos em Cabo verde no geral e Djarmai em particular: tudo, absolutamente tudo, é politizado e partidarizado. Mas queria deixar aqui uma palavra para a reflexão de todos os maenses, principalmente os políticos: esta questão não se trata de uma luta política, não se trata de uma luta entre o MPD e o PAICV, mas sim de uma luta do povo maense em defesa dos interesses da ilha e dos maenses.

Samir Agues da Cruz Silva
samirsilva@vozdidjarmai.com

domingo, 16 de janeiro de 2011

NU KRE NOS CIMENTERA!!

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quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

5 ANOS DE MÁ GOVERNAÇÃO DO PAICV E FRACA OPOSIÇÃO DO MPD NO MAIO

A uma semana do início (oficial) da campanha para as eleições legislativas 2011, é tempo de fazer o balanço do trabalho daqueles que há 5 anos foram eleitos pelos maenses para trabalharem em prol do desenvolvimento da ilha do Maio

O PAICV e governo do JMN falharam completamente na ilha do Maio. Os últimos 5 anos não trouxeram grandes mudanças para a ilha do Maio o que revela um claro falhanço do governo do JMN. Digo isto olhando para a realidade da ilha, para o trabalho que foi feito (ou que não foi feito) e para aquilo que eram as perspectivas e as expectativas dos maenses para esta legislatura que agora termina.

A grande arma de campanha dos partidos para Djarmai nas últimas (pelo menos 4) eleições é o desenvolvimento do turismo como motor para o desenvolvimento da ilha. Parece que todos na classe política cabo-verdiana concordam que Maio tem grandes potencialidades turísticas e que o desenvolvimento da ilha do Porto Inglês passa pelo aproveitar destas oportunidades. Mas a verdade é que estes mesmos políticos não têm sido capazes de materializar este discurso.

Passado mais 5 anos os maenses continuam á espera que esse tão aguardado “boom turístico” chegue. Maio continua a ser uma das ilhas que menos turistas recebe. As estatísticas do INE mostram que a deslocação de turistas a Djarmai é insignificante, aliás as infra-estruturas hoteleiras existentes (ou inexistentes) na ilhas espelham a falta de aposta dos operadores. As obras do Salinas Golf Resort já iniciaram mas resta saber quando teremos este empreendimento em pleno funcionamento. O turismo não criou emprego, não criou riqueza nem impulsionou o aparecimento de outras actividades geradoras de emprego e/ou riqueza.

Djarmai passou mais 5 anos isolado do resto do país e do mundo por falta de uma solução definitiva nas ligações marítimas com Praia. Aliás, o Ferry “Kriola” efectuou  precisamente esta semana  a sua primeira viagem comercial mas está, por enquanto impossibilitado de atracar no porto do Maio. Os maenses continuam á espera de um liceu. No lançamento do seu livro em Lisboa, JMN afirmou ter construído 17 liceus em Cabo Verde, resta saber por que razão ele deixa Maio sempre de fora.

Os dirigentes do PAICV-Maio, principalmente o candidato Fernando Jorge Frederico, felicitam o governo pela sua actuação na ilha nomeando alguns investimentos feitos,  mas esquecem da realidade á vista de todos. O governo completou o anel rodoviário, é verdade mas só tiveram que construir as ligações Figueira/Alcatraz e Cascabulho/Pedro Vaz. O Centro de Saúde, obra iniciada na anterior campanha, ainda não entrou em funcionamento. Resta a Casa do Direito e o Centro da Juventude que certamente não estão no topo das prioridades dos maenses. O único sinal positivo que consigo vislumbrar na actuação do governo nesta legislatura para Maio é o investimento feito na agricultura com a construção de mini-barragens e o projecto de adaptação às alterações climáticas na Lagoa.

Gostava muito de ouvir o candidato Fernando Frederico falar sobre o (des)emprego na ilha do Maio, gostava de ouvi-lo falar do turismo, do liceu, dos transportes marítimos, isto sem mencionar o projecto da cimenteira. Não falo do deputado(?) Arlindo Silva porque já sabemos que o homem não fala. Mudez? Vergonha? Medo? Incapacidade? Mordaça? Pelos vistos nunca saberemos já que… o homem não fala!

Mas se o governo merece nota negativa a oposição do MPD não merece melhor avaliação. Aliás o regressado Dr. Carlos Veiga, por sinal muito popular na ilha do Maio, é um dos responsáveis pela exclusão inicial de Djarmai do projecto Fast Ferry.

O MPD-Maio, na minha opinião, também pouco ou nada fez em defesa dos interesses da ilha. Perante o abandono da ilha por parte do governo do JMN a oposição ventoinha da ilha de Betú respondeu quase sempre com silêncio. Ou então quando falavam ninguém os ouvia. A deputada Joana Rosa ainda assim é a única que tentou fazer (dizer) alguma coisa mas não encontrou nenhum suporte, nem dos camaradas maenses muito menos dos dirigentes do partido. O MPD, quando quer, consegue ter uma grande atenção mediática na comunicação social e consegue dar uma grande visibilidade ás suas reivindicações. Aliás recentemente tornou-se hábito ver, entre outros, o agora candidato João Dono em conferências de imprensa, mas sobre a situação da ilha do Maio nem um pio.

Dono, justiça seja feita, até tem escrito sobre os problemas de Djarmai. Mas onde?! Nos seus blogues. Quem lê? Teve algum impacto? Gostaria de ver Dono falar dos problemas da ilha do Maio e propor soluções numas das conferências de imprensa que Veiga lhe manda fazer. Já da Comissão Política Regional ventoinha no Maio nem sinal de vida. Passaram praticamente 5 anos de bico calado e só recentemente, com o aproximar da data das eleições (pois claro) resolveram (tentar) fazer (dizer) alguma coisa com a divulgação de alguns comunicados, mas que nem os órgãos de comunicação social do MpD (Liberal, Já, Expresso das ilha, etc.) deram importância. Fadad Anda!!

Perante isto os maenses parecem não ter muito por onde escolher no dia 6 de Fevereiro. Entre Rosa, Frederico, Dono ou Brito “venha o diabo e escolha”. Adivinha-se mais um empate entre ventoinhas e tambarinas. Resta saber o estarei eu a escrever daqui a 5 anos sobre as prestações de Joana Rosa e Fernando Frederico na AN.

Samir Agues da Cruz Silva
samirsilva@vozdidjarmai.com

segunda-feira, 31 de maio de 2010

14zinhas: Pedofilia e outros crimes praticados e encapotados pelas autoridades e pela sociedade maense


Numa altura de reflexão e balanço de tudo aquilo que foi debatido durante o II Encontro de Estudantes Maenses em Portugal, resolvi escrever sobre um temas que não foi abordado no encontro e que, na minha opinião, constitui um dos piores males que afligem a nossa ilha: O fenómeno “Katorzinha”. Não pretendo com este texto dar lições de moral a ninguém, até porque não faz parte da minha forma de estar, pretendo simplesmente chamar a atenção para este fenómeno.
O fenómeno Katorzinha (ou 14zinha), é na minha opinião, um dos piores males que afecta a nossa ilha e um reflexo de perda de valores que hoje se regista na nossa sociedade. Cabo Verde no geral e Maio em particular, sempre foi terra de “kont nob”. Em Djarmai tudo é motivo de chacota, desde as coisas mais banais até coisas muito sérias. Tudo tem que ter um nome e as pessoas levam sempre no gozo.
Mas o fenómeno 14zinha ultrapassou, na minha opinião, todos os limites de brincadeiras. 14zinha é muito mais do que um simples kont nob ou uma simples brincadeira. Estamos a falar de adolescentes de 12, 13, 14, 15 ou 16 anos que, simplesmente, “estão na moda” porque o povo assim o quer. E “estão na moda” para tudo. Expressões que mais se ouvem em Djarmai nos dias de hoje são do tipo: Gosili y 14zinhas ki sta manda; Badje 14zinha ki sta da; Si bu ka tem 14zinha bu ka nada; etc., etc. Uma estranha moda que tem servido, inclusive, para encobrir crimes muito graves.
Faz-me muita confusão ouvir falar de “Badje 14zinha”. Não seria estranho se fossem bailes organizados e frequentados exclusivamente por adolescentes, num espaço, horário e ambiente apropriado. Mas não. São bailes para adultos, mas onde as estrelas são adolescentes dos 12, 13, 14, 15 e 16 anos, as “famosas 14zinhas”. Em que país estamos?? Onde estão as autoridades??
Ora, então vejamos: Até onde sei, a lei proíbe a entrada e permanência de menores de 18 anos nesses locais onde são realizados esses tais  “badje 14zinha”. Onde estão as autoridades?? Não há fiscalização??Onde estavam (estão) os pais?? E as autoridades?? Mas pior do que isto, na minha opinião, é não haver resposta convincente para perguntas como: Quem autorizou estas crianças a irem para “badje 14zinha”? Foram sem autorização??
Mas o pior crime tem outro nome: Pedofilia. Sim PEDOFILIA.
É absolutamente assustador ver que em Djarmai já é, praticamente, considerado normal um adulto se envolver sexualmente com as “famosas 14zinhas”. Dito por outras palavras: a pedofilia na ilha do Maio é absolutamente tolerável desde que seja praticada com 14zinhas. Exagero meu?! Não, realidade.
Senão vejamos: Em Djarmai todos tem que ter uma 14zinha desde os sub a homens de idade desde desempregado aos professores, desde        os delinquentes aos polícias. Todos os maenses sabem daquilo que estou a falar, aliás a maioria sabe até melhor do que eu. Não vale a pena citar nomes mas eu não tenho problemas nenhum em concretizar estas minhas afirmações em sede própria caso for necessário. Pedofilia é crime e muito grave, quem comete crimes é criminoso, deve responder e ser punido pelos seus actos e, Djarmai continua a tolerar crimes que estão a devastar a nossa sociedade.
Professores que envolvem com alunos, na sua maioria menores, existem á muito e eu até pensava que coisa destas já não acontecia. Ingenuidade minha. Há bem pouco tempo ouvi relato do caso de um professor da Escola Secundária do Maio que “namorava” (ou ainda namora?!) com uma aluna e ainda lhe batia em público! Novidade?! Infelizmente não. Djarmai inteiro sabe quem é o tal (ou os tais) professor (es) e a tal (as tais) aluna (s). Onde estão os pais da adolescente? Onde estão as autoridades? Onde está a direcção do Liceu? Onde está o povo maenses?
Polícias (sim Polícias) que envolvem com menores na ilha do Maio também não são novidades para nenhum maense. Aliás, de entre os vários casos houve que me chocou mais que é o caso de uma adolescente engravidada por um agente que depois “trad di kaza”, foi maltratada e como se não bastasse quando a esposa do tal agente apareceu a adolescente foi escorraçada e voltou de novo para casa dos pais. Mais uma vez pergunto: Onde estavam os pais? Onde estava a autoridade? Onde estava o chefe deste agente? Onde estavam os maenses?
Sempre que faço estas perguntas algumas pessoas respondem: “Mai ku Pai ka tem nada faze pamo minis di gosi ka sta obi”. Para onde caminhamos, minha gente? Para onde caminha a nossa sociedade? Pior é que, ao ponto em que chegamos, as coisas só podem piorar. Temos adolescentes que engravidam cada vez mais cedo, sem as mínimas condições nem económicas nem psicológicas para criar os filhos e caímos num ciclo.  É urgente fazer algo.
Palestras, campanhas de sensibilização, actividades de ocupação dos tempos livre, etc. tudo isto é necessário mas é preciso ir mais longe. É preciso tomar posições mais radicais. Se uma adolescente de 15 anos está até altas horas da noite num baile, quem são os responsáveis? Os Pais, os responsáveis do baile, os agentes da autoridade e a população em geral. E eu penso que o exemplo deve vir de cima.
Eu proponho a realização de uma campanha de sensibilização, controle e fiscalização em colaboração com os agentes da autoridade, poder local, pais, instituições religiosas, ONGs, gerentes e proprietários de estabelecimentos de diversão. Proponho fiscalização rigorosa junto dos locais de diversão e outros locais interditos a menores de 18 anos. Em Djarmai toda gente conhece toda a gente e não seria muito difícil realizar acções desta natureza.
As placas proibida entrada e/ou permanência de menores de 18 anos não estão lá só para enfeitar as paredes. Quem não cumpre as regras deve ser punido. Além do mais, os pais devem ser levados a assumir as suas responsabilidades. Se a fiscalização apanhar um(a) menor num local inapropriado deve dirigir para a casa dos pais ou encarregados do(a) adolescente e adverti-los.
Uma campanha desse tipo não resolveria toda a situação mas teria, sem dúvidas nenhuma, um grande impacto na sociedade e melhoraria, certamente, a situação face ao que assistimos hoje.
Mas há uma outra medida que tem que ser adoptada. Temos que acabar com a impunidade que existe em Djarmai face a crimes de abuso sexual contra menores e de violência no namoro. Envergonha-me enquanto homem saber que é considerado um acto normal bater nas mulheres, sejam elas namoradas, esposas ou amantes, em Djarmai. Qualquer incivilizado pode faze-lo em público e sai impune.
Há crimes que são de domínio público, qualquer cidadão pode denunciar. A nossa sociedade não pode continuar a tolerar comportamentos selvagens dalguns que se acham donos dos outros. Mas além de deveres legais existem deveres morais que são constantemente atropelados em Djarmai e ninguém faz nada. Um professor tem um código de conduta que ele tem que seguir, pelas responsabilidades que assume na sociedade, o mesmo se aplica aos agentes policiais e outros profissionais. Se não respeitam devem ser punidos e os seus superiores não podem compactuar com violações destas regras. A sociedade não pode ficar indiferente a estes atropelos.

Samir Agues da Cruz Silva
samirsilva@vozdidjarmai.com

terça-feira, 30 de março de 2010

Universidade Sénior Maense - Um projecto para a preservação da cultura maense

Há algum tempo o nosso colega e compatriota José Maria Duarte - Paixão di Maio - lançou um desafio aos jovens estudantes maenses, em particular aos colaboradores deste blogue, no sentido de lançarmos mãos à obra e apresentar propostas e projectos concretos com vista a contribuir para o desenvolvimento da ilha do Maio.

A proposta do José Maria visava ( e creio que ainda visa) recolher um conjunto de ideias, propostas, projectos e sugestões que depois seriam organizados e apresentados à Câmara Municipal e à Assembleia Municipal do Maio. Confesso que desde então já rabisquei muita coisa, sobre várias áreas mas nada de muito elaborado, pois infelizmente, não acredito que  o poder politico vá dar créditos a nossa contribuição, e sobretudo porque acho que iniciativas deste tipo, deverão partir de estruturas organizadas da sociedade civil e serem executadas pelas mesmas, tendo o poder político como um parceiro e não como entidade para a sua execução.

Porém, nos últimos dias, após analisar algumas discussões no blogue de temas relacionados com a cultura maense, principalmente  a preservação da nossa língua, e sobretudo após o meu envolvimento no projecto "Rádio Voz di Djarmai Online" onde tem surgido um clima que tem propiciado viagens à minha infância e sobretudo um contacto com aspectos da nossa cultura que, infelizmente, vão desaparecendo aos poucos, falo por exemplo: de jogos e brincadeiras, expressões da nossa língua, alguns hábitos e costumes, utensílios e objectos, estórias, etc., resolvi escrever sobre uma ideia que há muito venho alimentando.

O grande objectivo que, inicialmente estava, por detrás desta ideia era a de documentar a história recente (século XX) maense, contada pelas pessoas que vivenciaram esta história - os próprios maenses. Todavia, o projecto poderia abranger outras áreas e até incorporar actividades que pudessem ocupar o tempo dos idosos.

A ideia final acabou por se converter num projecto de criação de uma Universidade Sénior. As Universidades Seniores surgiram na França, no inicio dos anos 70, como resposta sócio-educativas visando criar e dinamizar actividades sociais, recreativas, culturais e educacionais para a terceira idade. O objectivo é manter os seniores activos de forma a se sentirem úteis através da realização de várias actividades como acções de formação e informação, visitas de estudos e lazer, oficinas e worshops, blogues, revistas e jornais, grupos de música ou teatro, voluntariado, etc. Hoje existem milhares de Universidades Seniores ou Universidades da Terceira Idade em todo o mundo inseridas dentro de dois modelos: o francês em que são criadas pelas universidades tradicionais, tem professores remunerados e garantem uma certificação, seguindo um modelos mais formal; e o modelo inglês em que nascem no seio de organizações sem fins lucrativos, com professores voluntários e não garantem certificação, seguindo um modelo mais informal.

Dentro destes dois modelos, a minha ideia passaria por um modelo mais próximo do modelo inglês enquadrado dentro do contexto do objectivo principal. Assente na percepção que eu tenho das universidades como sendo um espaço de produção e partilha de conhecimento, proponho que o projecto da Universidade Sénior Maense (USM) seja um projecto virado para a documentação da história, da cultura, dos hábitos, dos costumes, das tradições maenses, não esquecendo, claro, a vertente formativa, informativa e de lazer dos estudantes.

Sendo assim, a USM teria três principais vertentes: formação dos idosos em áreas como a saúde e lazer, história e geografia mundial, economia, línguas estrangeiras, informática e novas tecnologias, etc.; actividades de lazer como excursões, bailes e convívios, actividades culturais e desportivas, intercâmbios, etc.; e a vertente onde os alunos podem produzir trabalhos baseados nas suas memórias e conhecimentos práticos, divididos em várias áreas, como por exemplo: Tradição oral (estórias, contos, cantares, dizeres, palavras e expressões,etc.), história (memórias de factos histórico que marcaram as suas vivências e a história da ilha), Música, Danças, gastronomia, e outras áreas relacionadas com as actividades historicamente importantes para Djarmai como agricultura, pecuária, pesca, caça, artesanato, extracção de sal,etc.

Depois a própria USM poderia, em parceria com outras entidades, criar espaços e meios de divulgação dos trabalhos finais como por exemplo: intercâmbios com escolas primárias e secundárias, actividades culturais e de lazer (convívios, workshops, exposições, feiras, peças teatrais, etc.), edição de livros de contos, edição de discos com cantares populares,etc.

É claro que este projecto implicaria a mobilização de recursos financeiros e humanos, bem como de espaços e equipamentos. Todavia, gostaria de frisar que não se pretende criar uma instituição de ensino formal super equipada. O que se pretende é criar um espaço onde "nos djents grand" poderão se reunir periodicamente, com as mínimas condições necessárias, para falar de "badje rantxe rantxe", para nos ensinar palavras como "tisnadje" ou "pentxentxe" e os seus significados, para falar do tempo em que "lagoa era lagoa", para nos ensinar a fazer "Kej di kabra" ou "Kuzkuz di Taliska Mandioka", para relembrar estórias como "Nhu Lelé" ou "Belmira", para nos falar de "Nha Dunda Lagoa" ou "Xepa Mamai", para nos ensinar a fazer "Binde" ou "Sintxe", para nos ensinar brincadeiras como "Pilorit", "Poi Anel", "Kalerinhu Kaleron" (dos seus tempos é claro), para nos ensinar "reza di spanta funad" ou "mo ku ta dad bruxa ku pedra" ou ainda cantares como "pardalim pardalim",etc.

Estas são algumas coisas que lembrei de momento mas certamente  não significam nada dentro daquilo que "nos djents grand" podem nos ensinar e sobretudo deixar documentados para não desaparecerem com o tempo. E é claro que, em troca, podemos ensinar a "nos djents grand" coisas do nosso tempo como por exemplo enviar um email ou mesmo jogar playstation, mas sobretudo proporcionar-lhes uma vida activa e valorizar os conhecimentos e sabedoria que adquiriram ao longo do tempo.

Esta é uma ideia que está a procura de parceiros para se transformar num projecto e partir em busca de recursos para seguir em frente.

Samir Agues da Cruz Silva

terça-feira, 23 de março de 2010

Caros compatriotas,

Há algum tempo atrás escrevi uma nota justificando a não moderação dos comentários neste blogue, acreditando no bom senso e no carácter de todos aqueles que visitam e opinam neste blogue. Infelizmente, hoje estou a ver que estava redondamente enganado. Apesar dos muitos apelos que têm surgido neste blogue, infelizmente continuamos a receber comentários anónimos e, pior ainda, comentário que nada tem a ver com os assuntos abordados neste blogue e que só servem de ataques ofensas pessoais. Nos últimos dias esta situação tem agravado, com tentativa por parte de algumas pessoas de transformar este blogue num espaço de "lavagem de roupa suja" algo que não podemos continuar a admitir.

Alguns cibernautas maenses, ou pelo menos que se apresentam como sendo maenses, parecem estar habituados a esse tipo de comportamento noutros sítios da net (basta ver as palhaçadas que muitos fazem em artigos de sites como a semana) mas nós não vamos permitir que se transforme este blogue num circo nem num campo de batalha "sem done".

A partir de agora os comentários passarão a ser moderados por mim, Samir Agues da Cruz Silva, Administrador deste blogue. Todos os comentário enviados neste blogue só serão publicados após minha aprovação e se obedecerem a um conjunto de regras que passo a nomear:

  1. Só serão publicados comentários devidamente identificados com nome, verdadeiro. Para garantir que os comentadores usem nomes verdadeiros uma outra providência será tomada: só poderão deixar comentários nos artigos que estiver registado no Blogue. Juntamente com este artigo publicarei um guia para ajudar os visitantes a se registarem. Se alguém tiver alguma dificuldade no registo pode nos contactar que teremos todo o gosto em ajuda-lo a efectuar o registo.
  2. Só serão publicados comentários que se enquadram dentro dos temas abordados no artigo e/ou no blogue, ou ainda que tenha real interesse e visa única e exclusivamente contribuir para o debate sobre a ilha do Maio.
  3. A Administração do blogue reserva-se ao direito de não publicar comentários que visam atacar pessoalmente os colaboradores deste blogue e/ou qualquer outra pessoa.
  4. Todos os comentários publicados anteriormente que não respeitem ás regras acima enumerados serão removidos.
  5. Qualquer tipo de reclamação deverão ser remetidas para vozdidjarmai@hotmail.com e para a minha pessoa.

Aproveitamos ainda para deixar uma mensagem de encorajamento a todos aqueles que colaboram com artigos e comentários e fazer um apelo para que continuem a escrever e a darem o contributo para este blogue. Esta medida não é e nem deve ser visto como uma vitória daqueles que se sentem incomodados com a frontalidade dos mentores deste blogue. Isto não nos vai abalar, muito pelo contrário, servirá certamente para nos fortalecer.

Continuaremos sempre a levantar a nossa voz sempre em prol dum DJARMAI MIDJOR.

Samir Agues da Cruz Silva


quarta-feira, 17 de março de 2010

Karta (ki nunka n'manda) pa nha Kretxeu

Kretxeu,
 
Y ku lagua na odje y kurasan satadjad ki nsta li ta skrebeu algunz palavraz. Palavraz ki nta spera mo ta sirbi pa dau algum konsol, y prinsipalment, pa mostrau kantu nkreu txeu, Kant nsa ta sufri ku bu auzensia.
 
Li, na terá di stranhe, na tera di txeu rikeza, di txeu beleza, uniku sentiment ki ta dispertam y tristeza. Tristeza di vive lonje di bo. Desdi ki nu separa nha vida perde tud sentid. Desdi ki nparti pez aventura nka tem vivid, ntem simplesment subrivivid. Nten subrivivi trokad um kuza: speransa di um dia torna kontra ku bo.Nez nha sobrevivensia djam perde vontad di faze tud kuza. Ku fome na boka stang nka tem vontad di kume. Nez amargura di vida nsta alimenta di speransa.Note nta sabi kama nka tem um sone. Nha konsolansa y sabe mo so nfitxa odje y bu imagem ku ta parce na nha mente.
 
Gosi mas di nunka djam oia mo ki mi y dod na bo kretxeu. Nta pasa dia inter  ta lembra na kez kuza ki nu faze djunt. Ta lembra di prumer vez ku nfurtau um bej, ta lembra di mi xintad traz nhoz kaza ta spreta um xanse di sta ku bo, ta lembra di kez noz pasei na boka lagoa…
 
Nta lembra um dia ki nu ba da um pasei la mar di djam padja so nos doz. Areia staba kent sime lume ma ag staba friu sime jel. Bu deta ku kel bu korpim di sereia sterad na areia, nba tuma banhe nbem modjad nsukudi ag friu di nha kabel dent mei di bu kosta, bu labanta, xatiad, bu tokam diant, nkore pa linga d’ag ndixau pegam, bu da ku mi na txom nu rola, nu nbrasa nforsau um bejim modjad y salgad sime beje di mar na areia… ah kanadja na mund, temp ki bai ka volta! Y ora ki nta fazeu ozga, ki bu ta txipitim!! Ah ka di nhanha!!
 
Lembransa y tant ki o ki ntuma xintid ag ta sprindam di odje, da dam um apert na kurasan ki nta pensa nka ta skapa. Ma ora ku nbem na mi, npensa mo noz doz inda nu tene txeu pa nu vive, mo inda nu tene txeu kuza pa nu faze djunt, mo nu tene  txeu pasei pa nu da djunt, mo ntene txeu beje pam furtau, txeu ozga pam fazeu y mo inda u tene txeu txipiti pou txipitim, nha speransa ta torna renaxse y nta torna ganha forsa pam kontinua ez luta.
 
Kretxeu, sodad y txeu kamim y lonje ma kel kre di mi pa abo y tam grande, tam fort ki ta supera kualker barera. Sime Cesária kanta: "si pa kada vez ku npensa na bo di céu kaiba um strela, di tant pensa na bo céu dja ka tinha mas strela". Djam kre skrebeba tud kel ki nsta xinti nes mumenti li ma ka tem papel na mund ku ta txiga pa kebe tud kel ku sta dent mi. Ma kuma Dioz dja kre, ka ta dura nta sta na bu lad pa nu mata tud es sodad.
 
Kretxeu nunka ka bu duvida di kel ku nta xinti pa bo. Nta prometeu mo nunka nka ta dixau bo so, nta prometeu mo nta fazeu mundjer maz filiz di mund. Sempre ora ku xinti bo so basta bu fitxa odje nta entra na buz pensament. Noz Korp pode sta lonj di kompanher ma nhaz pensament ta sta sempre djunt ku bo y nande ku nbai nta lebau sempre na nha kurasan.
 
Djam kre dispidiba di bo ku mil bej y um ram di flor ma kome distansia ka ta permiti nta prometeu um dia planta um jardim di flor di Anís pa simboliza nha amor eterno pa bo.
 
Di alguem ki so sta na mund pa um kuza: AMAU,
 
Samir (so di bo) Silva

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

As "oito" ilhas de Cabo Verde segundo "Liberal"


Samir Agues da Cruz Silva

A Ilha do Maio Existe? - Carta aberta aos Exmos. Senhores Directores do “Liberal Online” e da “A Semana Online”.

Exmos. Srs. Directores da “A semana Online” e do “Liberal Online”,

Esta carta poderia perfeitamente ter sido dirigida a todos os órgãos de comunicação social de Cabo Verde, pois,a vossa generalizada indiferença e o vosso total desprezo pela ilha do Maio e por tudo aquilo que acontece e/ou não acontece em Djarmai causa-me a mim, e creio que a todos os maenses, um sentimento de grande indignação.

Contudo, apesar dessa minha indignação e da minha incapacidade de entender e, sobretudo, de aceitar esta discriminação que, aliás, é também praticada na generalidade dos serviços prestados em Cabo Verde e muitas vezes em serviços públicos e por organismos e agentes públicos, mais não posso fazer senão levantar a minha voz de protesto. Pelo menos no que diz respeito aos órgãos que Vossas Excelências dirigem cabe aos Senhores decidirem e o máximo que posso fazer é lamentar tais decisões.

Mas a razão principal que me levou a endereçar esta missiva á Vossas Excelências, embora esteja dalguma forma ligada ao referido anteriormente, é muito mais repugnante.

Quando cheguei a Coimbra em 2004, na primeira conversa que tive com o meu tutor de curso disse-lhe que eu era da ilha do Maio e ele disse-me que nunca tinha ouvido falar de Djarmai, algo que poderia perfeitamente ser normal não fosse o facto de ele ter acrescentado que já tinha ouvido de todas as outras ilhas, Santa Luzia inclusive, menos Maio. Mas, enfim, nada de extraordinário. O que é certo é que a partir daquele momento ele passou a saber que em Cabo Verde existia uma ilha chamada Maio.

Na semana passada, um colega meu, português, veio ter comigo e disse-me que lhe tinha mentido que quando lhe disse que era da ilha do Maio. E eu, atónito, perguntei-lhe como assim! Foi então que, mais uma vez para meu espanto, ele disse-me que em Cabo Verde não existe nenhuma ilha chamada Maio.

(Á esta altura os senhores devem estar a perguntar o quê que os senhores e os vossos “jornais online” tem a ver com isso. Já vão perceber.)

Certo daquilo que me ia dizendo, prosseguiu o meu colega a explicar-me o que tinha sucedido. É que por alguma razão qualquer, ele queria algumas informações sobre algo que se tinha passado em Cabo Verde, e eu próprio indiquei-lhe os vossos sítios para retirar mais informações. “Talmazora”. Não é que o meu amigo foi descobrir que, segundo as vossas informações, Cabo Verde tem apenas 8 ilhas!

É obvio que eu desfiz o mal entendido e ele agora já não duvida da existência da ilha do Maio. Mas depois fui confirmar as informações que o tinha induzido em erro e constatei que afinal era muito mais grave.

“Liberal” no seu site apresenta na página inicial um bonito esquema com “as 8 ilhas de Cabo Verde” onde cada ilha vem acompanhada duma bela imagem e Maio, obviamente, não aparece. Mas “Liberal” sabe que Djarmai existe, só mantém-no escondido na “sanzala”, longe do olhar do mundo. Se procurarmos nos “Dossiers” do “Liberal” lá encontraremos a ilha do Maio, com ar muito triste e se imagem nenhuma. E eu pergunto: Porquê?

Numa das suas raríssimas notícias sobre a ilha do Maio “Liberal” denominou Maio como “a ilha enteada”, dado á forma como o governo tem tratado a ilha. Pois, aproveitando a deixa do “Liberal” eu diria que, para “Liberal” Maio é uma espécie de filho bastardo (perdoem os maense) de Cabo Verde, que apesar de “Liberal” conhecer faz questão de esconder do mundo.

Já “A Semana” parece mesmo desconhecer a tal “filho bastardo”. Aliás, “A Semana” revela um fraco conhecimento da geografia de Cabo Verde. Na sua secção denominada “ilhas” “A Semana” apresenta a sua versão das “8 ilhas de Cabo Verde”, com uma agravante. Segundo “A Semana”, em Cabo Verde existem 8 ilhas, a saber: Ribeira Grande de Santiago, Brava, São Vicente, São Nicolau, Fogo, Sal, Santo Antão e Santiago. Boa Vista? Maio? Que ilhas são estas? Isto para não falar de Santa Luzia. Mas, Ribeira Grande de Santiago foi elevado á categoria de Concelho ou de ilha?

Exmos. Srs. Directores,

Que os órgãos que os Srs. Dirigem não se interessem pela ilha do Maio, isto os maenses, embora indignados, não Vos pode exigir e pouco temos a fazer. Mas esta discriminação e desrespeito que os Senhores e os Orgãos que os Senhores estão a ter para com Djarmai, para com os Maenses, nós não podemos continuar a admitir.

Não peço igualdade de tratamento porque ao que parece é pedir muito, mas pelo menos uma coisa acho que a ilha do Maio e os Maenses merecem: Respeito. E é so isso que peço: Respeito.



Samir Agues da Cruz Silva

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Djarmai - Revista do Ano 2009


Chegou o final do ano é altura de fazer um balanço daquilo que foi o ano 2009 e perspectivar aquilo que poderá ser, ou pelo menos deveria ser, 2010. Tal como todos os anos, nos inicio de 2009 as espectativas eram muito elevadas e todos pensavam "este ano é que vai ser".

Porém, apesar de alguns acontecimentos importantes, ou que, no futuro, poderão vir ser importantes (pelo menos é esta a espectativa) e das chuvas que trouxeram "azágua", 2009 termina e a sensação com que é de que o futuro Djarmai foi adiado por mais um ano.

2009 fica marcado por alguns acontecimentos positivos, como por exemplo, a inauguração da estrada Figueira-Alcatraz ou a abertura da Casa do Direito, por acontecimentos tristes como a morte de Alcides Santos, "Xidau" ou o clima de grande tensão entre jovens e a Polícia Nacional, mas sobretudo, por aquilo que deveria ter acontecido e não aconteceu. A aposta no turismo ("como motor de desenvolvimento") foi mais uma vez adiada, desta vez com a (des)culpa da crise, o nosso (já tão famoso) Centro de Saúde (ou será Hospital?) continua em fase de conclusão e Maio continua sem Liceu.

No que á Economia diz respeito, Djarmai continua num impasse, tudo porque, falar de desenvolvimento económico no Maio á muito que, por imposição dos governantes, significa falar do turismo, e quanto a este último estamos conversados. Aliás, 2009 ficará certamente na memória dos maenses pelo lançamento da primeira pedra para a construção do Salinas Resort. Se bem que, tenho quase a certeza que tal pedra será novamente lança em 2010 ou quiçá até em 2011, já que, das obras nem sinal.

Maio continua a ser um dos conselhos com maior taxa de Desemprego do país, fenómeno este que afecta maioritariamente jovens. Muitas famílias maenses continuam a depender do trabalho das Obras, incluindo muitos jovens com 12º ano concluído. Os mandantes teimam em atribuir o monopólio do desenvolvimento da ilha ao turismo que, no entanto não arranca, esquecendo os outros sectores. Esta situação se manterá enquanto não perceberem que não se vai conseguir combater eficazmente o desemprego em Djarmai sem apostar forte e seriamente nos sectores tradicionais e historicamente importantes para o povo maense, e outras actividades produtivas e geradoras de rendimento para as famílias.
Porém 2009 ficará marcado também pela abertura de duas novas agências bancárias na ilha do Maio, sinal claro de que cada vez se acredita mais no potencial económico da ilha.

Na saúde, o ano fica claramente marcado pela epedimia da dengue em que Djarmai foi uma das primeiras ilhas a registar casos e uma das mais afectada, mas sublinhe-se, essencialmente, a excelente resposta das autoridades de saúde da ilha, que apesar dos constrangimentos e deficiencias que todos nós conhecemos fizeram um trabalho louvável.
Falar da saúde em 2009 é falar inevitavelmente da pandemia da Gripe A (suina?!, mexicana?!) e também se falou de um eventual caso em Djarmai, mas nada assinalável.

Assinalável sim é facto do nosso novo Centro de Saúde continuar "em faze de conclusão" e de maenses continuarem a morrer na ilha ou a caminho da capital devido á falta de condições de saúde na ilha e á inexistência de meios de evacuação. Alcides Santos, mais conhecido por Xidau, delegado do Ministério da Educação e candidato do PAICV á Câmara Municipal do Maio nas autáquicas de 2008 será, também será, certamente, lembrado eternamente pelos maenses.

A Juventude maense esteve em destaque em 2009 e, infelizmente, nem sempre pelas melhores razões. Um clima de grande tensão entre jovens e a Polícia Nacional, com agressões e acusações de parte a parte, relatos de kassubody a turistas e kaba ku badje entrou na moda. A PN fala na "provocações, injúria e resistência em acatar ordens dos policiais" e a população fala em "abuso de autoridade".

Noutro plano, o alcoolismo continua a ser um grave problema social em Djarmai, diria mesmo um problema de saúde pública, o consumo de drogas aumenta a cada dia, a PN diz-se "preocupada" e empenhada e combater o trafico que "é alimentada sobretudo via marítima por botes de boca aberta procedentes de Santa Cruz". A gravidez prococe continua a flagelar as nossas adolescentes, a taxa do abandono escolar teima em permanecer elevada e VIH/SIDA continua a ser um tabu para os maenses.

Na Política, tudo na mesma. O Governo continua a indiferente, a Câmara Municipal continua inerte, o deputado Arlindo Silva amordaçado e a deputada Joana Rosa a "cumprir". O facto mais assinalável da politica (ou politiquice!?) no Maio em 2009 é a continuação da contenda entre a Câmara e o Governo. O último capítulo foi a inauguração do Centro da Juventude (do Governo) em resposta (oposição) á Casa da Juventude (da Câmara Municipal).

No Desporto, nada de novo, Onze Unidos Campeão Regional de Futebol (no Relvado do novo Estádio Municipal) e uma discreta participação no "Nacional", igual á da Selecção Maense no torneio inter-ilhas.

Na Cultura uma excelente iniciativa da Casa da Juventude (não confundir com Centro da Juventude) com o inicio de Aulas de Música. Tote Zabelinha fez muito sucesso com "14zinha", "Nhu Léle", "Bia Zé", "Diploma" e, sobretudo, "Nhu Dam". Rodou Portugal, EUA e Holanda a levar rabecada di Djarmai e juntamente com Luis di Pira, João Silva "Chot" e outros artistas maense brindaram os maenses com um 8 Setembre diferente.

Na saída de 2009 resta-me deixar aqui os meus desejos para 2010 e como é hábito nestas alturas, não vou dispensar utopias e exageros.
Em primeiro lugar desejo que 2010 seja um ano de Paz e muita ´Saúde para todos os maenses.
Em segundo, terceiro e todos os outros lugares:

  • Que o novo Centro de Saúde saia da "fase de conclusão";

  • Um novo Liceu para Djarmai;

  • Resolução definitiva da ligação marítima com a capital;

  • Um bom ano de "Azágua" com muito milho, "fijom, bongolom, malom...."

  • Maior aposta nos sectores tradicionais da economia (agricultura, pesca, pecuária);

  • Que "14zinhas" saia da moda;

  • (já agora) que "25kinhos" entre na moda;

  •  Que Barreirense FC seja Campeão Regional, Nacional, vença a Liga dos Campeões Africanos e o Mundial de Clubes;

  • Que os Jovens usem mais "camisinha";

  • Que "pega da" saia da moda;

  • Que "kaba ku badje" saia da moda;

  • Que o preço do Grogue aumente para 1000$00/cálice;

  • Que Betú continue a fazer mornas;

  • Que Tote Zabelinha lançe um novo CD/DVD com temas como (Studantz di PT, Zé Maria (Paixão) di Mamatxe, 25kinhos, Nhu fiam, etc.)

Boas Festas Bom Ane nem si pok pa poi na boka pa ot pode atxande ku vida ku saude na pass ku sussege.

Samir Agues da Cruz Silva

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Algunz Padase di "Boka Lagoa"


(.....)
N´nhetxe rapaz Barrer
Mama flam nhos y so brajer
Boja dose
Linga malgose

Ka kre trabadje
Kre ba so badje
Ba djobe mosa
Pa faze trosa

Arneg di bo
Kou mufinam
Dixam txotxo
Sime u atxam.
(.....)

Samir Agues da Cruz Silva (samirsilva@vozdidjarmai.com)

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Algunz Padase "Boka Lagoa"


 (.....)
Ka di skola
Ka di bola
Ka di badje
Ka di Trabadje

Ka tem mundjer
Ka tem kudjer
Ka nportal bedje
Ku fari fidje

Palmanham ced
Djobe kel trok
Ba bebe grog fed
Pa poi kel mok
(.....)

Samir Agues da Cruz Silva (samirsilva@vozdidjarmai.com)

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Nota de Esclarecimento


Nos últimos tempos tenho andado um pouco ausente do Blogue "Voz di Djarmai", por motivos pessoais e académicos. Tenho limitado basicamente a publicar os artigos dos meus colegas que me vem chegando, dado á falta de tempo para escrever artigos e comentários.
Porém, dado á insistência de um (ou uns) ser(es) sem nome, sem rosto e pelos vistos, também sem audácia, ou quiçá até amedrontado, vi-me obrigado a escrever esta breve nota de esclarecimento.

Antes de mais, queria manifestar a meu repúdio pela covarde tentativa de me atingir pessoalmente, desrespeitando e trivializando a memória do meu Pai.

João António da Cruz Silva foi, em vida, um homem íntegro e submisso. Não sou eu que o digo, até porque, infelizmente, não tive o privilégio de o conhecer, mas sim todos que com ele conviveram. Eu tenho muita admiração, respeito e, sobretudo, orgulho nele, e mais não peço ás pessoas, senão o respeito pela sua memória.

Se o dito cujo “ser sem rosto”,… não tem respeito pelo seu Pai ao menos que respeite o dos outros. E volto a repetir, eu não peço mais nada, a não ser respeito pela memória do meu Pai.

Voltando ou nosso blogue, queria esclarecer alguns aspectos:

1. O Blogue foi criado por mim, Samir Agues da Cruz Silva, (aliás, ao contrário de alguns “fantasminhas teclantes”, eu tenho um nome e um rosto e sempre dei a cara), e, em primeira instância, tudo aquilo que é publicado neste blogue é da minha responsabilidade, convindo a mim pedir responsabilidades junto das pessoas que mo mandam.

2. Desde a criação do blogue só por uma vez recusei a publicação de conteúdos a mim enviados. Foi o caso de um artigo (ou melhor informações) enviado por alguém que não se identificou. Enviei um email ao remetente solicitando que se identificasse e não recebi nenhuma resposta. De resto, todos os artigos que recebi, identificados, publiquei no Blogue independentemente da sua origem ou conteúdo.

3. Apesar de ter ter sido criado por mim, Voz di Djarmai é um blogue de todos os maenses e para todos os maenses independentemente das suas convicções políticas, religiosas e/ou de outra ordem. Voz di Djarmai é de todos aqueles que se revêm nesta causa que é a ilha do Maio. Djarmai é de todos os maenses e Djarmai somos nós. Se não formos nós a defendermos Djarmai ninguém o fará por nós.

4. Para terminar, queria deixar bem explícito para o(s) “fantasminha(s) teclante(s)” que não vai ser assim que me vão conseguir calar. Aliás, isto só contribui para me dar mais genica para continuar a lutar por mais respeito, mais consideração e melhores condições para Djarmai e para o povo maense.

Peço desculpa aos seguidores deste blogue pois não foi para isto que foi criado este blogue e prometo não voltar a este assunto neste espaço, mas, por vezes remetermos ao silêncio pode alimentar leituras falaciosas que, por sua vez, fortalecem viventes como o(s) meu(s) amiguinho(s) “fantaminha(s) teclante(s)”.

Um Abraço Maense,

Samir Agues da Cruz Silva (samirsilva@vozdidjarmai.com)

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Uma voz cada vez mais expressiva e inevitavelmente mais ouvida



Foi no dia 14 de Setembro, uma semana depois das festas do município maense, talvez numa tentativa obstinada de despenhar a agonia de viver “8 de Setembro” longe de Djarmai, talvez motivado pela vontade de espalhar o meu sentimento de amotinação pela situação da minha ilha, talvez alvitrado pela nossa santa padroeira ou se calhar por um misto de tudo isto, que nasceu “Voz di Djarmai”.


Uma voz que há muito altercava dentro de mim, na ânsia de se libertar e, do alto do monte penoso, gritar bem alto um grito de sublevação para dizer ao mundo – Sim, existo! -, um grito de insurreição para dizer “aos seus donos” – Não, Basta! -, e acima de tudo, um grito de intimação para dizer aos seus filhos – Gritem! Gritem por mim!

O mais extemporâneo dos filhos encetou um atado e desvelado grito, talvez na ânsia de granjear atenção. Suavemente foram surgindo gritos numa toada deleitosa e sublime, dissimulada por preceitos melódicos. Nascia um novo Poeta.

Foram se multiplicando os gritos e os tribunos. Foram surgindo mais e mais audientes que, ganhando audácia foram soltando, cada um á sua maneira, o seu grito. Numa peleja que aparentava destinada aos barões, eis que surgiu a primeira baronesa. Destemida, decidida e melindrosa foi soltando gritos de insurreição, que muitas vezes soava melopeia, convocando os seus conterrâneos.

Tanto atrupido, carregando tonel de gritos revoltosos, impelido por turbas de insaciados discípulos, esfaimados de justiça, perturbou “os donos” que, embora tenham submergido as cabeças e entupido os ouvidos, já não consegue esconder as suas inquietações.

O mundo, este que nunca entorpece, aos poucos vai abrindo as vendas.

Há um ano Voz di Djarmai nasceu para soltar os seus gritos. E os seus acudiram juntando os seus gritos, distintos gritos, mas gritos afins, motivados pelo anelo de, no final, gritar, num só grito, - conseguimos! Djarmai conseguiu! – Mas, falta o mais importante dos gritos. Falta o seu grito. Porque o próximo grito será sempre o mais importantes e o próximo tribuno sempre o mais relevante, solte o seu grito que Djarmai retorquirá gritando, gritando e vencendo!

Porque Djarmai é meu, é teu, Djarmai é de nosso ! Porque Djarmai sou eu, és tu, Djarmai somos (todos) nós!

Samir Agues da Cruz Silva

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Voz di Djarmai continua vivo

1. Antes de mais queria pedir as minhas sinceras desculpas a todos os colaboradores e seguidores do nosso blogue pela minha ausência. Desde o I Encontro dos Estudantes Maenses em Portugal, que se realizou em no passado mês de Maio em Coimbra, que me desliguei quase totalmente do Blogue. A verdade é que devido a compromissos académicos e pessoais tive que fazer isso mas, estou de regresso e com muito mais força e convicção.

2. Aliás, a respeito do I Encontro de Estudantes Maenses em Portugal, falta publicar um documento, uma espécie de relatório de forma a dar às pessoas que não puderam participar um “feedback” daquilo que foi o encontro e principalmente o encontro com o Sr. Presidente da Câmara. Algumas participantes já escreveram, e muito bem, dando a sua visão sobre aquilo que se passou, mas acho que falta algo mais pormenorizado e, de certa forma, mais oficial. Prometo elaborar com a maior brevidade possível e em colaboração com outros participantes e, assim que for possível, publicar este tal documento.

3. Eu tenho a perfeita noção de que nos últimos meses, o nosso blogue perdeu um pouco daquela força que tinha ganho ao longo desse seu primeiro ano, mercê da falta de actualização, e se calhar muitos pensaram que perdemos a motivação inicial e abandonamos a causa para que foi criada Voz di Djarmai. Muito pelo contrário. Voz di Djarmai continua bem vivo e nós continuamos motivados, agora mais do que nunca, para defender essa nossa causa. A nossa causa é Djarmai e o que nos motiva são os maenses. Djarmai e os Maenses podem contar connosco sempre e nós contamos com todos os Maenses para defender esta causa. Viva Djarmai!!

Samir Agues da Cruz Silva

sexta-feira, 3 de abril de 2009

A ardilosa tentativa do Sr. Deputado Arlindo Silva de enganar os Maenses

No passado dia 26 de Março foi publicado num jornal online do nosso ciberespaço um artigo do Sr. Arlindo Silva – Deputado da Nação, eleito pelo Círculo eleitoral do Maio - intitulado “Nova largada para a Ilha do Maio”. Aliás fiquei sem saber se se tratava de um artigo de opinião enquanto deputado da nação eleito pelo circulo eleitora do Maio – como aparece no final do artigo – ou se era uma noticia, escrita por esse mesmo senhor, enquanto correspondente do tal jornal online na ilha do Maio.

Tal dúvida surgiu quando, pouco depois de ler o artigo, fazendo uma ronda pelo mesmo site encontrei a mesma peça, com um outro título – a saber “Maio em velocidade cruzeiro com investimentos do governo. Alguém viu uma Câmara por aí?” - , já como notícia na secção de Economia. Afinal!? Notícia ou Artigo do Deputado!? Será que o Sr. Arlindo Silva acumula o cargo de Deputado da Nação com o de correspondente do tal jornal online na ilha do Maio? Esclarece Sr. Deputado.

Voltando ao tal artigo (ou notícia!?) – que pode ser lido em http://vozdidjarmai.blogspot.com (não é este o tal jornal online) -, o Sr. Deputado começa por “avaliar” a gestão da Câmara Municipal do Maio para depois afirmar que “a ilha do Maio encontra-se num processo de desenvolvimento que, no futuro, deverá levar a que os seus cidadãos augurem por dias muito melhores” e que isto é “graças ao processo acelerado de infra-estruturação da Ilha, que vem sendo desencadeado pelo Governo”, numerando vários investimentos que vão ou estão a ser realizados na ilha.

Pois bem Sr. Deputado, é verdade que a Câmara Municipal do Maio, na minha opinião, tem sido pouco dinâmica e quase só tem limitado a gerir os poucos serviços existentes na ilha. Todos os dias saem notícias de autarcas que se deslocam de um lado para outro á procura de parcerias, acordos e ajudas, apresentando projectos, trocando experiencias, nas mais diversas áreas, mas de Djarmai “nem fumo nem mandado”. A ideia que fica para quem está do lado de fora é que os camarários Maenses estão tão bem aconchegados nos seus assentos, tomando banho de sol ao som das ondas de “Bitchirotcha” e rescendendo a brisa que elas acarreiam, que não precisam de mais nada nem de mais ninguém. Só que esquecem que o povo, se calhar, precisa.

Mas o Sr. Deputado, ao que parece, não esta a par da real situação em que a ilha do Maio se encontra. O Sr. disse que a ilha do Maio encontra-se “em processo de desenvolvimento”?! Desenvolvimentos Sr. Deputado?! O quê que o Sr. entende por desenvolvimento?!

O desenvolvimento de qualquer sítio passa sim “pela construção de estradas, aeroportos, portos, introdução de melhorias a nível de fornecimento de energia, água, transportes, educação e serviços de saúde...” Sr. Deputado. Mas não há desenvolvimento sem a melhoria das condições de vida das pessoas Sr. Deputado. Pessoas, estes sim devem ser os principais alvos das politicas de promoção ao desenvolvimento de qualquer lugar. Maio é das ilhas tem das mais altas de desemprego em Cabo Verde, principalmente entre os jovens.

Não basta ter estradas, aeroportos e portos. A estes investimentos é preciso juntar uma rede de meios de transportes funcional e, sobretudo, acessível á população. De que serve ter um porto (sem as mínimas condições para transbordo de passageiros) se só há barcos uma vez por mês (muitas vezes nem isso)? O Sr. falou da remodelação do Aeroporto e do aumento para cinco voos semanais. No entanto, o Sr. sabe muito bem quanto custa uma viagem Praia-Maio (ou vice-versa) na companhia estatal. Para fazer tal trajecto, que dura cerca de 10 minutos, paga-se 6500$00 Sr. Deputado! Quantos Menses é que podem pagar tal fortuna?

Os problemas dos operadores económicos e da população principalmente não ficaram resolvidos com o aumento do numero de voos semanais Sr. Deputado. Longe disso. A falta de ligação marítima tem criado graves problemas á ilha, com os bens de primeira necessidade a subirem constantemente de preço e por muitas vezes a esgotarem. Já agora, gostava de saber o quê que o governo esta a fazer para “fazer com que tal situação (ligação marítima irregular à cidade da Praia) não perdure por muito tempo”?!

Aliás o Sr. demonstrou ter uma grande aptidão para confundir as coisas. Ter instalações eléctricas não significa automaticamente ter energia em casa e ter canalização não significa ter automaticamente agua em casa. “Para bom entendedor meia palavra basta”.

Djarmai é, certamente, a única ilha de Cabo Verde que não tem um Liceu construído de raiz. As actuais instalações onde funciona o nosso liceu só o Sr. e seu Governo é que não vêem que não tem condições. Para quando um liceu para Maio?

E os Serviços de Saúde?! Quantos Maenses morreram nos últimos tempos devido á falta de condições do nosso centro de saúde? O Sr., do alto do seu poleiro, rabisca para defender o “seu” Governo enquanto jovens Maenses (o último dos quais o ex-candidato do seu partido ás últimas autárquicas na ilha) continuam a morrer na ilha ou a caminho da cidade da Praia por falta de cuidados básicos de saúde! Há quanto tempo está o novo Centro de Saúde em “fase de conclusão”?!

O Sr. numa tentativa ardilosa, mas pouco aguçada, tentou mascarar a real situação da ilha. É, no mínimo, vergonhoso esta sua atitude Sr. Deputado.

A ilha do Maio está, há muito, isolada e completamente abandonada pelo Governo que defende, mas o Sr. parece andar na lua. Ou melhor na(s) estrela(s) (negra)! O Sr. foi eleito pelo povo Maense para, acima de tudo, defender os interesses da ilha e do seu povo. Mas ao que parece serve como uma simples marionete manipulada por aqueles que se esqueceram dos Maenses.

O povo Maense merece, pelo menos, respeito Sr. Deputado. Se o Sr. não faz nada em benefício da ilha pelo menos não rabisca tentando enganar os Maenses. E se o Sr. ainda tiver algum respeito pelo povo que o elegeu, devia aproveitar esse pouco tempo que ainda lhe resta no seu poleiro, para fazer alguma coisa em benefício da ilha e do seu povo.

Já agora aproveita e pergunta ao seu camarada JMN novas sobre a “nossa” Cimenteira.



Samir Agúes da Cruz Silva
http://vozdidjarmai.blogspot.com

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

"Voz di Djarmai" - E o lado Positivo?!


Há cerca de cinco meses quando decidi criar este blog não imaginava que em tão pouco tempo "Voz di Djarmai" se tornaria no espaço que hoje é. As visitas de maenses(e não só) espalhados por esse mundo fora, os comentários e, sobretudo os artigos, ricos artigos, de gente que, na sua maioria são futuros quadros maenses, transformou "Voz di Djarmai" num verdadeiro ponto de encontro dos maenses.

Ao longo desses, meses muitos foram os artigos e comentário publicados neste blog. Temas como o isolamento da ilha, o abandono e desprezo dos governantes, o turismo e o desenvolvimento, o alcoolismo, a droga, a violência, a transferência da fábrica de cimento para Santa Cruz, e muitos outros mais animaram debates seguidos com muito interesse pelos nossos seguidores.

Porém, hoje queria fazer uma (auto)critica ao nosso blog e aos nossos "opinadores" (eu inclusive). Se olharmos para estes temas e para os conteúdos publicados no "Voz di Djarmai", deparamos com um cenário um pouco negativo e pessimista, dando uma ideia de "Voz di Djarmai" ser um espaço de critica negativa (apesar de muitas serem criticas positivas) e de os "opinadores" serem uma espécie de militantes do "PMB" ("Partido Mandador di Boka").

Tal como escreveu Hélder no seu último comentário e escreveram outras pessoas, além de criticas àquilo que está mal é preciso partirmos num outro rumo e apresentar sugestões e eventuais soluções para os problemas que afligem a nossa ilha. Acho que esta coragem que tem vindo a ser demonstrada através da denuncia dos problemas que a nossa ilha tem enfrentado, e sobretudo, a responsabilização das pessoas pela actual situação é de louvar e deve continuar. Todavia, Djarmai não pode continuar a viver de esperança e lamentações. É preciso solucionar os problemas, e preciso agir e temos que ser nós os maenses a fazê-lo. O primeiro passo é reflectir sobre os problemas e buscar soluções.

Uma outra nota negativa vai para o pessimismo e a mensagem negativa que os conteúdos tem transmitido. Na situação em que Djarmai se encontra é natural que os artigos e os comentários sejam na sua maioria criticas àquilo que esta mal, mas nem tudo é mau em Djarmai. Djarmai tem muitas coisas boas e algumas merecem também o nosso destaque a nossa atenção. E para que este artigo não seja apenas mais uma critica, termino fazendo referencia a uma das "coisas boas".

Umas das iniciativas positivas que merece destaque no "Voz di Djarmai" é a Radio Comunitária Maense. Nada melhor de que uma rádio para dar voz aos maenses. Este projecto é uma iniciativa louvável e que pode (e deve) ter um papel muito importante no desenvolvimento de Djarmai.

No momento em que muito se fala no isolamento da ilha, no abandono e no esquecimento Rádio Comunitária Maense pode servir como um meio reivindicativo para o povo maense. O povo maense pode encontrar neste meio de comunicação um espaço para fazer ouvir a sua voz e para reivindicar os seus direitos.

Esta radio também pode ter um papel muito importante na educação das pessoas em questões relacionadas com a cidadania, saúde e bem-estar, cultura, desporto, etc. Através de programas temáticos pode-se formar e informar as pessoas sobre os seus direitos e deveres, prevenção de doenças, protecção do ambiente, campanhas de prevenção e combate ao alcoolismo, drogas e toxicodependência, promoção cultural e do desporto. Porém, é preciso garantir a total independência politica, religiosa e ideológica da rádio para evitar problemas relacionados com programas ou conteúdos tendenciosos susceptíveis de prejudicar este ou aquela camada da sociedade.


Parabéns aos mentores do projecto e força a todos aqueles que fazem esta "nossa rádio".

Um abraço a todos.

Samir Agues da Cruz Silva

sábado, 31 de janeiro de 2009

Djarmai e a Questão dos Partidos Políticos


Maio é uma ilha “pequena”, com cerca de 3800 eleitores (menos de 2% do total nacional), portanto, praticamente sem nenhum peso na cena politica nacional. Infelizmente a classe politica em Cabo Verde continua com uma estratégia muito eleitoralista, o que faz com que Djarmai seja relegado para os últimos lugares das prioridades dos principais partidos políticos.

Porém, nós, os maenses, não podemos deixar que Djarmai se torne num refém desta forma egoísta de fazer politica. Nós não podemos ficar de braços cruzados e aceitar que esta situação que, muito tem prejudicado os maenses continue.

Na minha óptica esta questão deve ser vista em duas perspectivas. Temos que olhar para o poder local e poder central de forma diferente.

Em relação ao poder central, temos que criar uma massa critica muito forte para defender os interesses da ilha. Perante o total desinteresse que tem sido demonstrado pelo governantes nos últimos tempos pela ilha, temos que ser nós, os maenses, a levantar a voz para defender os nossos interesses. Levantar a voz não só para criticar mas, acima de tudo, para debater as questões relevantes para a ilha, formular propostas e sugestões e, desta forma, contribuir duma forma activa nas tomadas de decisões sobre questões que influenciam o desenvolvimento da ilha e o bem-estar dos maenses.

Mas esta massa critica deve ser liderada pelos deputados eleitos nas legislativas pelo circulo eleitoral do concelho. Não podemos esquecer que os maenses elegem dois deputados nacionais para defenderem, acima de tudo, os interesses da ilha. É verdade que, também, são representam de partidos políticos, mas temos que exigir que coloquem os interesses da ilha em primeiro lugar.

É necessário um movimento cívico muito forte para colocar Djarmai na agenda dos políticos e dos governantes em particular. Em democracia o poder pertence ao povo, o povo tem que exigir o melhor daqueles que elegem para os representar e, avaliar as suas actuações.

No que ao poder local diz respeito, é fundamental despir as camisolas partidárias e concentrar num único “partido”: Djarmai. A experiência do movimento MUPAD (Maio Unido Para Desenvolvimento) é um exemplo de sucesso de movimento cívico e o seu desaparecimento é, por outro lado, um bom exemplo das dificuldades que são impostas a concelhos da dimensão de Djarmai com autarquias partidarizadas.

É necessário uma forte equipa composta por maenses independentemente das cores partidária, e cujo principal objectivo é o desenvolvimento do Maio e o bem-estar dos maenses. Mas é também necessário um bom projecto, um projecto que vai de encontro ás necessidades da ilha, priorizando o combate á pobreza e promovendo o bem-estar de todos os maenses.

Eu costumo defender que, muito mais do que ideias e projectos, é preciso ter pessoas para concretizar tais projectos. Mas no caso maense acho que falta-nos juntar, discutir os nossos problemas, debater os desafios que temos pela frente, cruzar e clarificar ideias, e sobretudo, elaborar projectos e programas de intervenção para depois reunir as pessoas certas para os concretizar.

Para finalizar queria chamar a atenção para o papel da comunidade em geral. Cabe ao Governo e á Câmara o papel de trabalhar no sentido de promover o desenvolvimento e o bem-estar das populações mas, nós não podemos ficar de braços cruzados á espera que eles resolvam tudo.

A comunidade em geral deve ter um papel activo neste processo através de associações comunitárias, cooperativas de desenvolvimento, ONGs etc. O associativismo é um dos principais meios de resolução de problemas comuns e, pode ser ser um importante instrumento de combate á pobreza e promoção do desenvolvimento.

Há certas questões que podem ser prioritárias para uma determinada comunidade mas que, pela sua especificidade, não são prioridades para os governantes. Nestas questões, as associações comunitárias podem elaborar projectos e procurar financiamento tanto junto de entidades publicas como ONGs e entidades privadas para as resolver.

O associativismo é um exercício de cidadania e, como alguém um dia disse, “a união faz a força” e “o povo unido jamais será vencido”.


Samir Agues da Cruz Silva

domingo, 4 de janeiro de 2009

“Nha Ntónha e o Aeroporto Internacional do… Maio” vs O Governo e a Fabrica de Cimento do… Maio. Será que a “Estória” se repete?


A “estória” que segue é uma adaptação de uma história que, por várias vezes, ouvi na minha infância e juventude, contada pelos mais velhos. Não sei se a história original é verídica. A minha versão é pura ficção e os personagens são fictícios. Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência.

Nha Nhónha e Aeroporto Internacional do… Maio

Há muito, muito tempo, no tempo em que Cabo Verde era mesmo verde, em que havia água a correr nas ribeiras, em que o pasto cobria as vacas, na ilha do Maio, onde havia mais cabras do gente, havia uma senhora chamada Nha Ntónha.
Nha Ntónha era casado com Nhu Djom, e possuíam uma grande riqueza que se traduzia em incontáveis cabeças de cabra e vaca, e imensurável “Txom” para agricultura, além de um desmedido sobrado guarnecido com mobilas da época e louças de prata.
O casal continha tão vasto terreno que quando lhes perguntavam até onde ia a parcela deles dizia:

- Te nde bu vista ta alkansa.

As cabras e vacas eram tantas que, para ordenhar todas eram necessárias semanas e á vezes até um mês, e todos tinham um nome: Salema, Marabanda, Tunga, Motxa, Motxinha, Sordinhada, Mamanton, Preta, Pretinha, Txif Mok, Rusa etc. Pastavam numa enorme planície chamada “Djam Padja” situada entre a localidade de Barreiro e uma grande extensão de praias de areia branca.

Mas apesar de tudo isto, Nha Ntónha, conhecia todos os buracos dos seus terrenos e todas as cabeças de gado e sabia o nome de todos eles. Ela era capaz de notar a falta de qualquer um. De vez em quando murmurava ela enquanto ordenhava Motxa:

- Kel brajera di Motxinha oje nka sabe pa nde kul sta anda! - Ou então:
- Tunga dja ba pari.Manham nu tem rakejom.

Certo dia, Nhu Djom chegou ao sobrado e disse:

- Ntónha manda matar um kapade porque Sr. Administrador me disse que amanhã vão chegar gente da Praia que vem cá tratar de um assunto connosco. – E Ela estarrecida respondeu:

- Gente da Praia!? Que gente!? O quê que eles querem connosco!?

- Não sei. O Sr. Administrador não me disse. Manda compor a casa e prepara uma mesa bem recheada para receber os convidados. - Disse Nhu Djom.

Nha Ntónha mandou os empregados limpar a casa, mandou tirar as louças de prata da vitrina, mandou matar um kapade, cavar mandioca e foi ao trapitxe buscar um garrafão de 5 litros de grog di kana.

No dia seguinte, a hora do almoço, lá estava o sobrado muito bem arrumado e enfeitado e uma mesa tão cheia que não cabia nem um palito. Tinha kuzkuz di mindj, kuzkuz di mandioka, tenterem, pastel di mindje, fidjoz, daf, papa di mindje, kej di kabra, mantega baka, xerenzinha, xerenzona, let di baka, let di kabra fresk, let di kabra durmid, entre outros, além de frutos da ilha, grog di kana, pontxe e, claro, um rico guizad di kapade ku mandioka lagoa.

Eram cerca de meio-dia quando Nhu Djom chegou com o Sr. Administrador e mais dois convidados. Entraram, Nhu Djom mostrou-lhes o sobrado e ficaram logo maravilhados com a riqueza do casal. Depois sentaram á mesa, almoçaram e depois de bem fartos, foram sentar á sala, cada um com um cálice de grog di kana e puseram conversar. Nha Ntónha ansiosa por saber a razão da tão honrosa visita, perguntou:

- Então homens de Deus, o que vos trazem até á nossa casa? - Nhu Djom, envergonhado, repreendeu:

- Então mulher, isto é jeito de falar com os convidados!!? – E respondeu um convidado:

- Não faz mal Nhu Djom, ela tem todo o direito de perguntar. Bom, nós fazemos parte duma comissão criada pelo Exmo. Sr. Governador, para elaborar um projecto de construção de um aeroporto internacional…

- Aeroporto internacional!? E o quê que nós temos a ver com isto!? – Interrompeu Nha Ntónha.

- Cala a boca e deixa falar o homem Ntónha. – disse Nha Djom. E o Senhor continuou:

- Bom, nós tivemos a ver alguns sítios, em todas as ilhas, e achamos que a planície de Jam Pala é o local ideal para a construção do aeroporto.

– Jam o quê? - Interrogou Nha Ntónha.

- Ele está a referir ao “Djam Padja” mulher. – Respondeu Nhu Djom.

- Bom, como ouvimos dizer que os senhores tem algumas cabeças de gado a pastar naquele terreno, viemos cá falar convosco para ver se arranjam um outro sitio para pastar os animais porque…

- O quê?! – Perguntou Nha Ntónha, levantando do “moxe” onde estava sentado.

- Os senhores vieram á minha casa para me dizerem para arranjar um outro sitio para colocar as minhas “limárias”?! Querem tomar o nosso “Djam Padja” para fazer aeroporto internacional?! Nem no dia em que eu morrer! Quero ver quem vai-me tirar, eu Ntónha, de “Djam Padja”.

- Calma minha senhora. Nós vos daremos um tempo para arranjarem outro sítio. Além do mais, segundo os registos, o terreno não está registado em nome de ninguém, por isso pertence ao estado. - Disse o outro convidado.

- O quê?! Tirar-nos o terreno que já veio de várias gerações para dar ao estado!? Além do mais, Tunga já esta acostumada a ir parir na rotxa di kumianze, ela nunca se acostumaria com outro sitio. Isto para não falar de Txif Mok que ontem perdeu cabrito “nob e mandei-a de volta a Txada procurar. E Motxa que tem problema no ouvido?! Ela vai morrer só com o barulho dos aviões!!! – Continuou Nha Ntónha.

- Mas Nha Ntónha, o Sr. Governador… – Tentou falar o convidado, mas Nha Ntónha interrompeu logo:

- Os Srs. já viram esta mesa? Os Srs. já viram tudo isto? Tudo isto é produzido aqui. E os Srs. querem tirar-nos Djam Padja para fazer aeroporto?! Se os Srs. quiserem, quando Faluxo chegar preparo um saco de Txasina, um balde de Kej, um quarta de Mindje, um saco de mandioca, uma bóia de let kabra e um garrafão de grog e mando entregar aos Srs. e ao Sr. Governador. Mas as minhas cabras, ninguém tira de Djam Padja.

Cansados de tentar convencer Nha Ntónha e convencidos pelos “argumentos” dela, despediram os dois homens do sobrado e rumaram á Praia. Na saída, um virou para Nha Ntónha e Disse:

- Só ka Nha skesi di kel garafon grogu Nha Ntónha.

- Nta mandau doz garafon – Respondeu Nha Ntónha.

Nunca mais ouviu-se falar do aeroporto internacional na ilha do Maio, até o dia em que o dito aeroporto foi inaugurado na ilha do Sal.

A ilha do Sal cresceu, transformou-se na porta de entrada do país, no maior destino turístico das ilhas e na terceira ilha mais importante do arquipélago.

A ilha do Maio por sua vez, andou para traz. Muitos anos de seca devastaram a ilha, acabaram os pastos, morreram as cabras, secaram as fontes, morreu Nha Ntónha e “Djam Padja” transformou num autêntico deserto só com pedras, “lagartijaz” e “osgaz”. Pior do que isto, a ilha foi abandonada e martirizada pelos governantes. (fim)



A pergunta que se coloca é: Como seria hoje a ilha do Maio se o Aeroporto Internacional Amílcar Cabral tivesse sido construído na ilha?

Nha Ntónha tinha razão quando questionou sobre a continuidade da sua actividade. Certamente que isto teria um impacto muito forte na actividade agropecuária que outrora teve uma grande importância para a ilha. Se calhar teríamos perdido um pouco daquilo que nos identifica, perdiam-se alguns produtos tradicionais, alguns hábitos e costumes. Mas em relação á actividade agropecuária, o tempo e o clima encarregaram de nos dar a resposta.

Esta é uma bela “estória” que nos leva a fazer uma viagem ao passado de “Djarmai”, e pensar que as coisas podiam ter sido diferentes. Mas estou a contar esta estória não para exumar o passado, mas sim arribar uma questão, presente, que, de certeza vai influenciar o futuro da ilha.

Muitos anos depois, num contexto completamente diferente, a historia parece querer repetir. Só que desta vez, num caso diferente, com actores diferentes e por motivos diferentes. Aliás, por motivos muito mal explicados e duvidosos.

Há alguns anos atrás começou-se a falar da instalação de uma fábrica de cimento na ilha do Maio, dado que na ilha existem matérias-primas em abundância para tal. Aliás, tanto quanto sei, o projecto inicial do Porto do Maio foi elaborado pensado nesta possibilidade.

Algum tempo depois, começam a correr rumores que a dita fábrica vai ser transferida para Santa Cruz por incompatibilidades da instalação da fábrica no Maio com a aposta no desenvolvimento do turismo.

Digo rumores porque, segundo a deputada Joana Rosa que, numa entrevista que concedeu á rádio “Gritu Minis Djarmai”, sedeada em Roterdão na Holanda, até agora não houve nenhuma comunicação oficial por parte do Governo sobre esta matéria. Aliás, fala-se na transferência e faz-me alguma confusão perceber como é que se vai transferir a dita fábrica de um lugar para outro se ela ainda nem existe!

Mas, ao que tudo indica, está tudo preparado para a tal transferência.
Ora bem, em primeiro lugar, começa a preocupar-me a total falta de diálogo entre as autoridades centrais e a autoridade local do Maio. Ao que parece estão de costas voltadas e ninguém fala com ninguém sobre nada. Minha gente, isto é coisa de crianças.

Em segundo lugar, a questão da incompatibilidade deixa muitas dúvidas e levanta muitas questões. Existe algum estudo de impacto ambiental que comprova esta tese?! Segundo Joana Rosa, existe sim estudos feitos que demonstram a viabilidade económica, financeira, social e ambiental do projecto na ilha do Maio. Para Santa Cruz não se conhece nenhum estudo do tipo.

A ilha do Maio é maior que a ilha do Sal e que a ilha de São Vicente em superfície e nessas ilhas o turismo pode coabitar com zonas industriais e Maio não!? Maio tem uma zona interior vasto em superfície totalmente desabitada e dista muitos Quilómetro da costa. Em Setúbal, um dos sítios mais turísticos de Portugal, existe uma fábrica de cimento a escassos quilómetros dos empreendimentos turísticos.

E para Santa Cruz não há projectos de investimentos turísticos? Aliás, tanto quanto sei, existem grandes projectos que apostam no turismo rural! Não há incompatibilidades?

Mas mais estranho ainda é o seguinte:

Cerca de 90% da matéria-prima vai da ilha do Maio, e certamente vai via Porto do Maio. Ora vai ser construído um resort nas imediações do Porto do Maio que, aliás, situa-se junto duma das mais belas praias da ilha. E os camiões cheios de rochas a passarem no meio do resort?

É incompatível com o turismo uma fabrica de cimento em que o produto é expedido já ensacado e não é incompatível passar diariamente camiões e mais camiões cheios de rochas, pedras e terras no meio de uma aldeia turística?!

Ou então comecem a pensar em arranjar aviões para fazer esse transporte. (Ah, é verdade, Santa Cruz não tem aeroporto!! Complicado!!)
Acho que esta história está mal contada.

Quanto a nós, Maenses, não podemos ficar de braços cruzados á espera dos acontecimentos. Temos que exigir uma explicação desta questão antes que seja tarde. Isto mexe com o futuro da ilha e não podemos deixar que questões politicas atrase mais ainda “Djarmai”.

Se a “estória” se repetir muito provavelmente temos o futuro em risco. Eu já encontrei uma maneira de escapar ás consequências. Vou ser escritor. Vou escrever a trilogia “O mistério do desenvolvimento do… Maio”:

- Vol. I “Nha Ntónha e o Aeroporto Internacional do… Maio” (incompatível com as cabras)
- Vol. II “O Governo e a Fabrica de Cimento do… Maio” (incompatível com o turismo)
- Vol III “As transferências e Desenvolvimento do… Maio” (e, finalmente, o mistério é desvendado)

Vai ser com certeza um “bestseller” e adaptado ao cinema!


Samir Agues da Cruz Silva